Opinião — in Público, 14 de Maio de 2026

Num tempo de demasiados cadáveres, valha-nos este

Há um cadáver que nos visita há 101 anos sem causar dor: o cadavre exquis. Um livro com 77 autores celebra-lhe o método e a arte.

https://www.publico.pt/2026/05/14/culturaipsilon/opiniao/tempo-demasiados-cadaveres-valhanos-2174525

O mundo continua a girar sem grandes novidades. O ogre americano anda à procura de candidatos a 51.° estado sem que ninguém se mostre interessado e sem que o internem num hospício; e o rol de mortes das guerras que iam acabar, mas não acabam, tornou-se conta-corrente de cadáveres já sem rostos, apenas números, na frieza dos noticiários. A par disto, há um cadáver que há décadas nos visita sem causar dor, e que completa neste 2026 a bonita soma de 101 anos. Trata-se do cadavre exquis, jogo lúdico surrealista inventado em Paris, em 1925, por André Breton, Marcel Duhamel, Jacques Prévert, Yves Tanguy e Benjamin Péret. O jogo era simples: escrever uma palavra ou frase num papel, dobrá-lo e passar ao autor seguinte, que, desconhecendo o que o anterior escrevera, fazia o mesmo. No final, ao desdobrá-lo, o resultado era uma surpresa geral.

Escusado será dizer que o método se espalhou pelo mundo, até hoje. E se o nome pelo qual ficou conhecido nasceu da frase que originou tal jogo, "cadavre exquis boira le vin nouveau" ("cadáver esquisito beberá o vinho novo"), convém assinalar que a palavra esquisito, tradução à letra do "exquis" francês, deixa larga margem interpretativa, pois se habitualmente associamos "esquisito" ou "esquisitice" a estranho, bizarro, incomum ou anormal, a verdade é que os dicionários (também os portugueses) lhe atribuem outros significados, como primoroso, invulgar, delicado, delicioso, raro, elegante, refinado, distinto, requintado, sofisticado, extravagante, exótico ou até impertinente. O que só reforça a intenção do cadavre exquis original, num desdobrável de sinónimos à escolha.

Com apreciável herança nas artes portuguesas, escritas, pictóricas ou gráficas (Cesariny, O'Neill, Vespeira, Oom, Sebag, António Pedro, Moniz Pereira, Mário-Henrique Leiria e tantos outros; até no romance O Mistério da Serra de Sintra, escrito por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão), o cadavre exquis continua bem vivo, mesmo em trabalhos escolares.

Ora, no passado dia 9, foi lançado em Lisboa um livro resultante desse tipo de experiência, identificável logo no título: Cadavre Exquis, com coordenação de Jorge Barbosa, edição da By The Book e apresentação, no auditório do MUDE, de Rui Vieira Nery. De onde nasceu este cadavre, que junta fotografias e textos de 77 autores? De um outro, e isso é explicado logo nas primeiras páginas, iniciado pelo jornalista Miguel Calado Lopes no dia 28 de Abril de 2023. Lançou um repto no Facebook, foi bem-sucedido, e as histórias nascidas desse cadavre exquis foram publicadas em crónicas, e, mais tarde, em livro.

Jorge Barbosa, que ao longo de 33 anos trabalhou em design gráfico editorial no Expresso, no PÚBLICO e na revista Courrier Internacional, e que trabalhou também no design do projecto de Miguel Calado Lopes, lançou idêntico desafio no mesmo dia do ano seguinte, 28 de Abril de 2024 e foi igualmente bem-sucedido. O livro é disso prova. O método? Começou com uma fotografia e um texto dele próprio, ao qual os convidados respondiam prosseguindo da mesma forma, cada qual conhecendo apenas o trabalho do anterior, não os restantes. A partir do mesmo texto inicial (tendo um mesmo texto final), nasceram duas correntes de histórias, que, impressas, deram ao livro lado A e lado B, como num disco.

Com muitos nomes conhecidos e outros menos, todos os textos e fotografias são tratados por igual. Um exemplo da "corrente" estabelecida entre textos: Tiago Miranda, fotógrafo, fala de Unhos (lugar de um festival punk rock) como de um lugar "onde Judas perdeu as botas"; Sérgio Godinho, músico, no texto seguinte, diz: "Eu sei onde Judas perdeu as botas", e aponta para os bastidores a caminho de um palco, onde "as botas ficaram escondidas onde só a próxima banda as saberá encontrar"; e Rui Cardoso Martins, escritor, conclui: "As botas não se perderam, não se encontraram, foram roubadas. Ea morte que nos rouba as botas - não quer andar descalça por aí, com tantos trabalhos - às vezes à saída, outras à entrada dos cemitérios, quando vamos solitários nos nossos próprios assuntos." E isto, entre fotografias e textos, é uma ínfima amostra do que o livro nos dá a ver e a ler.

Na apresentação, Rui Vieira Nery descreveu-o deste modo: "Numa sociedade esmagada pela massificação degradante do consumismo desregulado, e num contexto político cada vez mais marcado pela emergência de expressões de ódio, de intolerância, de violência, e de rejeição de todas as formas de diversidade, este cadavre exquis é, pelo contrário, uma belíssima expressão da liberdade individual e da afirmação do direito à diferença, que são condições indispensáveis à sobrevivência de uma sociedade aberta, livre e democrática." E, a terminar, sublinhou: "Ao 'viva la muerte' fascista que ouvimos berrar por todo o lado, este cadavre exquis deixa-nos um sonoro e decidido grito de 'viva la vida'

 

Livro — “Cadavre Exquis” Fotografar em Continuidade

Apresentação de Rui Vieira Nery